CUIDANDO DA CASA E DA VIDA

Notícia: Mons. Luiz Rodrigues Oliveira | Publicação: 11/09/2018
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"Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca" (Am 5,24). Com este brado do profeta Amós, a CNBB, juntamente com outras Igrejas cristãs lança mais uma Campanha da Fraternidade, obra iniciada em 1964 pelo então bispo de Natal D. Eugênio Sales. Dado o limite do espaço, declino de uma maior consideração histórica a respeito desse evento de mais de meio século de realizações. Mas, torna-se imperioso afirmar que no cerne de tal empreitada estava certamente a grande ebulição espiritual e pastoral que o Concílio Vaticano II estava promovendo no seio da Igreja e da comunidade católica mundial.

D. Eugênio era bispo conciliar. Daquele Concílio brotaram afirmações tão ricas e contundentes como aquela que inicia a Constituição Pastoral Gaudium et Spes: " as alegrias, as esperanças, as dores, os sofrimentos dos homens de hoje são igualmente as alegrias, as dores... da Igreja".

Bem, isto posto voltemos à Campanha da Fraternidade. Decorridos tantos anos e tendo percorridos tantos espaços das vivências humanas (fé, Igreja, sacramentos, educação, terra, saúde, trabalho, criança, idosos, negros, violência, família, migração, fome, mulher, paz, indígenas, água, segurança, etc.) eis que agora nos voltamos para uma temática que envolve boa parte ou quase tudo de todos esses temas já abordados nos anos anteriores: o meio ambiente, ou a casa de todos, a casa comum.

Ao longo dos meus muitos anos de vida e de ministério sacerdotal já ouvi muitos e os mais variados comentários acerca da oportunidade dessas campanhas. Certamente, nem todos foram favoráveis. Alguns até chegaram a ser de uma condenação tão estúpida que preferimos não gastar tempo em comentar. Hoje, por incrível que pareça, não são poucas as vozes que se unem para perguntar o que a fé, a religião e... o que a Igreja têm a ver com Dengue, Zika, Chikungunya, etc? O que a fé tem a ver com esgoto, lixo, poluição? É escusado lembrar que muitos ainda perguntam o que a Igreja tem a ver com política... Prefiro não comentar!

Sem a pretensão de ser moralista eu lhe proponho uma ingênua pergunta: o que a fé nos diz sobre microcefalia, aborto, eutanásia? Na ponta da questão, certamente todos os católicos diremos que matar é pecado; abortar é pecado... e, a raiz do problema onde está? Onde está o x da questão, senão na moral dos cristãos que, como dizia uma canção da minha juventude: "não adianta ir à igreja rezar e fazer tudo errado"!

A questão é de saúde pública, é de governo, é verdade, mas sobretudo é de humanidade, é de ética pública e pessoal; é de consciência social. Ou não? Querem mais um exemplo: eu voto num deputado que nos espaços públicos defende a fé cristã, é contra o aborto,etc. mas nos gabinetes do parlamento rouba e leva outros a roubarem bilhões que deveriam ir para o saneamento básico, para a educação, para a saúde. Basta! Chegamos ao fundo de um poço do qual não jorra nem petróleo, nem água pura, nem justiça mas lixo, esgoto, mosquitos e... morte morrida ou matada sem autor, sem criminosos, sem réu, sem condenado.

Dai porque, meu amigo cristão-católico, leigo ou religioso, a Gaudium et Spes precisa ser atualizada e a Campanha da Fraternidade não deve parar na sua saga profética de anúncio da salvação, pois salvar é dar vida. Lembrem-se Deus nos criou ao dar-nos vida e cuida de nós porque Ele nos criou para a salvação e não para morte