UM SER QUE SENTE...

Notícia: Mons. Luiz Rodrigues Oliveira | Publicação: 11/09/2018
Fotos: .

O recentemente falecido cientista (neurocirurgião, mais precisamente) Oliver Sachs se autodefiniu como "um ser que sente, um animal que pensa". Para além da retórica, com sua beleza e romantismo, creio que aqui esteja uma forte definição do que seja realmente o ser humano: um caniço pensante, um fragmento da carne e do tempo que faz história; que constrói e destrói vidas; que inventa, reinventa, faz e desmancha quase tudo quanto a natureza, na sua prodigalidade nos legou. Eis o homem...

Esse ser sensível, esse animal pensante é também sujeito, agente, protagonista livre e consciente do que faz e do modo como o faz. Assim é a humanidade, assim somos todos nós. Mas, poderíamos continuar revisitando o universo das ideias, buscando nos primórdios dos saberes a resposta para a nunca plenamente compreendida pergunta: quem sou? de onde vim? para onde vou?

A Sagrada Escritura diz-nos que "nada há de novo sob o sol..." Logo, todas e quaisquer perguntas que fizermos terão sempre como resposta Deus. Tudo dele procede e nesse tudo está também o homem. De onde viemos, senão daquele que tudo fez e governa. Para onde vamos, certamente para o encontro definitivo com aquele que é tudo em todos. Essa é a lógica da ilogicidade de Deus contemplada pela fé.

Aquele que tudo criou e viu que tudo era bom (Gên 1), também fez o homem e exclamou que "era muito bom" (id.). Doravante, o homem tornou-se para Deus o seu tu; a sua outra face em quem Ele colocou a Sua imagem, dando-lhe poder de possibilidade para lhe ser semelhante quando alcançasse o estágio da Sua estatura em Cristo Jesus.

Na carta aos Efésios São Paulo nos diz que "Ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor" (1,3-4). Sermos portadores-construtores de uma irrepreensibilidade que o mundo nos chama a não buscá-la, a não querê-la, pois a lógica deste mundo (a lógica do mercado) não se contenta com valores (morais), mas com valores quantitativos (monetários) e, este, corrompe e destrói todas as células do organismo humano e social.

Sermos santos e irrepreensíveis diante do mundo e de Deus, eis o grande apelo que os sinos do presépio estão nos chamando a escutar nesta noite bela, sob a luz da vela, no lar ou na capela, pois o mistério que nossos antepassados por tantos anos esperaram, em Cristo se revelou. É Natal. Deus novamente está no meio de nós dizendo que tudo quanto Ele fizera é bom e que o homem, esse ser que sente, esse agente, corruptível e corruptor, esse animal pensante... é muito bom! Sim, não obstante tanto poder de possibilidade que temos para fazer o mal, somos imagem de Deus e Ele mesmo quis assumir-nos na encarnação do Verbo Eterno e nascer-renascer nessa noite bela, na noite do Seu/nosso Natal.