CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2011 - Capítulo I (VER)

"Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o sexto dia." Ge 1,31

Este primeiro capítulo que falamos sobre o "Ver" da Campanha da Fraternidade 2011 com o tema "Fraternidade e a Vida no Planeta" e lema "A Criação Geme em Dores de Parto" Rm 8,22, aborda a questão ambiental a partir de um breve histórico e discorre sobre o reconhecimento da existência de uma crise ambiental que muito se confunde com o questionamento do próprio modelo civilizatório atual, apontando para a necessidade da busca de novos valores e atitudes no relacionamento com o meio em que vivemos. Enfatiza, assim, a urgência da implantação de um trabalho de Conscientização e Educação Ambiental que contemplem as questões da vida cotidiana do cidadão e discuta algumas visões polêmicas sobre o problema.

São grandes os desafios a enfrentar quando se procura direcionar as ações para a melhoria das condições de vida no mundo. Um deles é relativo à mudança de atitudes na interação com o patrimônio básico para a vida humana que é o Meio Ambiente. Os alunos podem ter nota 10 nas provas, mas, ainda assim, jogarem lixo na rua. Os adultos falam de proteção ao meio ambiente, mas pescam peixes-fêmeas prontas para reproduzir, ateam fogo no mato indiscriminadamente para queimar pastagens, ou realizam outras ações danosas, seja por não perceberem a extensão dessas ações ou por não se sentirem responsáveis pelo mundo em que vivem.

Como é possível, dentro das condições concretas contribuir para que os jovens, adolescentes e adultos percebam e entendam as conseqüências ambientais de suas ações nos locais onde trabalham, moram, estudam, se divertem ou passeiam, enfim, onde vivem? Como eles podem contribuir para minimizar os impactos negativos no meio ambiente? Quais os espaços que possibilitam essa participação? Enfim, essas e outras questões estão cada vez mais presentes nas reflexões e que em 2011 conversaremos sobre isto na Igreja, através da Campanha da Fraternidade.

A problematização e o entendimento das conseqüências de alterações no ambiente permitem compreendê-las como algo produzido pela mão humana, em determinados contextos históricos, e comportam diferentes caminhos de superação. Dessa forma, o debate inclui a dimensão política e a perspectiva da busca de soluções para situações como a sobrevivência de pescadores na época da desova dos peixes, a falta de saneamento básico adequado ou as enchentes que tantos danos trazem à população, criação de aterros sanitários, etc.

A solução dos problemas ambientais tem sido considerada cada vez mais urgente para garantir o futuro da humanidade e depende da relação que se estabelece entre sociedade/natureza, tanto na dimensão coletiva quanto na individual. Essa consciência já chegou à escola e muitas iniciativas têm sido tomadas em torno dessa questão, por educadores de todo o país. Por essas razões, vê-se a importância de incluir Meio Ambiente nos currículos escolares como tema que permeia a prática educacional. É fundamental, na sua abordagem, considerar os aspectos físicos e biológicos e, principalmente, os modo de interação do ser humano com a natureza, por meio de suas relações sociais, do trabalho, da ciência, da arte e da tecnologia.

A QUESTÃO AMBIENTAL

A perspectiva ambiental consiste num modo de ver o mundo no qual se evidenciam as inter-relações e a interdependência dos diversos elementos na constituição e manutenção da vida. À medida que a humanidade aumenta sua capacidade de intervir na natureza para satisfação de necessidades e desejos crescentes, surgem tensões e conflitos quanto ao uso do espaço e dos recursos.

Nos últimos séculos, um modelo de civilização se impôs, alicerçado na industrialização, com sua forma de produção e organização do trabalho, a mecanização da agricultura, o uso intenso de agrotóxicos e a concentração populacional nas cidades. Tornaram-se hegemônicas na civilização ocidental as interações sociedade/natureza adequadas às relações de mercado. A exploração dos recursos naturais se intensificou muito e adquiriu outras características, a partir das revoluções industriais e do desenvolvimento de novas tecnologias, associadas a um processo de formação de um mercado mundial que transforma desde a matéria-prima até os mais sofisticados produtos em demandas mundiais.

Quando se trata de discutir a questão ambiental, nem sempre se explicita o peso que realmente têm essas relações de mercado, de grupos de interesses, na determinação das condições do meio ambiente, o que dá margem à interpretação dos principais danos ambientais como fruto de uma "maldade" intrínseca ao ser humano. A demanda global dos recursos naturais deriva de uma formação econômica cuja base é a produção e o consumo em larga escala. A lógica, associada a essa formação, que rege o processo de exploração da natureza hoje, é responsável por boa parte da destruição dos recursos naturais e é criadora de necessidades que exigem, para a sua própria manutenção, um crescimento sem fim das demandas quantitativas e qualitativas desses recursos.

As relações político-econômicas que permitem a continuidade dessa formação econômica e sua expansão resultam na exploração desenfreada de recursos naturais, especialmente pelas populações carentes de países subdesenvolvidos como o Brasil. É o caso, por exemplo, das populações que comercializam madeira da Amazônia, nem sempre de forma legal, ou dos indígenas do sul da Bahia que queimam suas matas para vender carvão vegetal.

A relação abaixo mostra, numa trágica coincidência convergente, que em meados do próximo século os grandes processos agrícolas, edáficos (solos), climáticos, de exaustão de petróleo, demográficos e de extinção de biodiversidade, a que os cientistas se referem, terão atingido e em muitos casos já ultrapassado alguns limites extremos ou críticos.

A- Os combustíveis fósseis líquidos terão finalmente chegado perto do seu limite econômico, pois restarão apenas algumas jazidas fósseis de extração mais cara e difícil, como certos fundos de mar mais profundos. Além do preço muito mais elevado, as novas quantidades descobríveis serão provavelmente bastante limitadas.

B- As terras novas agricultáveis já estarão todas utilizadas, inclusive as irrigáveis. As perdas anuais de solo, devido à erosão e aos processos de urbanização, excederão de muito os processos naturais de formação de solos novos.

C- A produção agrícola por área já terá chegado ao seu limite máximo, seja pelo melhor uso de adubos e pesticidas, seja pela engenharia genética e pelos processos integrados de combate às pragas. Há contudo um limite máximo fisiológico de produção possível, em cada área (clorofila por cm2, água disponível, etc). Nota-se que o uso desordenado e excessivo de pesticidas pode agravar a situação e diminuir a produção.

D- Ao mesmo tempo em que a crescente população, já dobrada nessa época, exigirá maiores quantidades de alimentos, as mudanças climáticas, com o deslocamento dos grandes cinturões climáticos do planeta, transformarão muitas áreas hoje altamente produtivas, em extensões muito menos capazes de produzir. Essas áreas poderão se tornar mais secas. Por outro lado, numerosas áreas que hoje são semi-áridas e pouco produtivas, nesse quadro de mudanças climáticas poderão passar a ser úmidas, mas continuarão produzindo escassamente, pois a constituição de novos solos é um processo muito lento.

E- pelos mesmos motivos, as aceleradas mudanças climáticas obrigarão os ecossistemas terrestres a se deslocarem rapidamente, o que os desestruturará, radicalmente, extinguindo muitas espécies e assim diminuindo enormemente a atual biodiversidade do planeta.

O debate dos problemas ambientais nos diferentes meios e, em especial, nos meios de comunicação, tem levado, em muitos casos, à formação de alguns preconceitos e à veiculação de algumas imagens distorcidas sobre as questões relativas ao meio ambiente. Às vezes isso ocorre por falta de conhecimento, o que se justifica diante da novidade da temática. Mas, outras vezes, essas distorções visam a minimizar os problemas e/ou banalizar princípios e valores ambientais, assim como depreciar os movimentos ambientalistas de maneira geral.

Apesar de todas essas observações profundamente pessimistas sobre o futuro do planeta, há também razões para crer que fatores corretivos poderão se desenvolver a tempo de minimizar alguns desses males e perigos. A uma série de considerações muito desfavoráveis, é possível também contrapor outra série de argumentos moderadamente otimistas. O resultado final, ou seja, a forma que tomará o mundo do futuro, dependerá da interação de muitas variáveis: redução das emissões de carbono; reflorestamentos; substituição das fontes de energia à base da utilização de combustíveis fósseis; práticas de desenvolvimento sustentável no campo, florestas, rios e mares; despoluição dos rios, mares, lagos, etc.

Não é pouca coisa. E mesmo sob o aspecto teológico, devemos considerar essas futuras gerações também como o nosso próximo. O Criador nos legou este mundo com deveres e responsabilidades implícitas e explícitas, que não podemos ignorar. Pois certamente não foi para transformar o planeta Terra num "Lixão", que estamos aqui.

Pesquisa: MEC - Meio Ambiente / Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.




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